Moeda comum dos BRICS: viável para reduzir o domínio do dólar?
Jim O'Neill, em texto para Project Syndicate replicado pelo InfoMoney, avalia a viabilidade de uma moeda comum dos BRICS para liquidar comércio intra-bloco e desafiar o domínio do dólar.

Moeda comum dos BRICS: viável para reduzir o domínio do dólar?
Especialistas avaliam que uma moeda dos BRICS para liquidar o comércio intra-bloco pode ser plausível na forma de uma moeda baseada numa cesta de moedas, embora enfrente obstáculos políticos e institucionais.
A discussão sobre criar uma moeda comum para o grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) ganhou novo fôlego em análise assinada por Jim O'Neill, publicada originalmente no Project Syndicate e repercutida pelo InfoMoney. O'Neill, que cunhou a sigla BRIC, examina se um instrumento cambial partilhado poderia reduzir a dependência global no dólar americano — e quais seriam as barreiras práticas para isso.
Por que a ideia parecia improvável
O'Neill aponta que, pela experiência histórica, grandes moedas de reserva se consolidaram em contextos de contas de capital plenamente conversíveis — isto é, quando investidores podem mover capitais livremente para dentro e fora do país emissor. No caso de uma moeda compartilhada, haveria ainda a necessidade de criar uma autoridade monetária supranacional (um novo banco central), o que implica abrir mão da autonomia de bancos centrais nacionais na definição de políticas monetárias.
Esses requisitos tornam difícil imaginar que integrantes do BRICS+ aceitem as concessões necessárias. O autor questiona, por exemplo, se a Índia estaria disposta a ceder independência ao seu banco central para participar de um regime conjunto que inclua a China; e destaca que o próprio renminbi não é plenamente internacionalizado porque a China tem mantido controles de capital deliberadamente.
O que mudou e por que a ideia voltou a ser considerada
Nos meses recentes, O'Neill admite ter revisto parte de seu ceticismo por quatro motivos principais:
- O presidente chinês Xi Jinping expressou interesse em aumentar o papel internacional do renminbi;
- Muitos líderes do BRICS+ demonstraram insatisfação com o predomínio do dólar e seus conselheiros entendem as alternativas monetárias;
- A administração do presidente norte-americano Donald Trump, segundo O'Neill, tem enfraquecido instituições que dão sustentação ao dólar — por meio de pressões sobre membros do Federal Reserve e de políticas comerciais protecionistas — o que reduziu o poder da moeda americana;
- E porque novas tecnologias financeiras, incluindo stablecoins e infraestruturas digitais, podem facilitar meios alternativos de pagamento entre países.
Além disso, o autor observa que a relação entre moedas de reserva e liberdade de fluxos de capital é um fenômeno mais recente, especialmente desde o colapso do sistema de Bretton Woods (1971-73). Isso abre margem para repensar modelos históricos.
Um modelo pragmático: moeda para liquidar comércio
Em vez de buscar de imediato uma moeda única plenamente internacionalizada, O'Neill propõe uma opção pragmática: criar um meio de pagamento comum destinado à liquidação do comércio interno do bloco, possivelmente suportado por uma cesta de moedas dos países participantes ponderada pelo PIB.
Esse arranjo exigiria negociações complexas e provavelmente respeito continuado a controles de capital por alguns membros, mas poderia estimular volumes maiores de comércio intrabloco e, gradualmente, ampliar a interoperabilidade financeira entre os participantes.
O papel das tecnologias digitais
Contrariamente ao argumento de que stablecoins e moedas digitais reforçariam o dólar, O'Neill destaca que essas mesmas tecnologias também tornariam mais simples o desenvolvimento de sistemas de pagamento alternativos por parte dos BRICS+. Assim, inovação tecnológica pode ser tanto uma ameaça quanto uma oportunidade para a ordem monetária vigente.
O que isso significa para o Brasil e para o cidadão comum
- Para o setor exportador brasileiro: uma moeda ou sistema de liquidação intrabloco poderia reduzir custos e riscos cambiais em transações com outros membros dos BRICS+.
- Para o investidor: mudanças na arquitetura monetária global podem afetar fluxos de capital e a atratividade de ativos denominados em dólar, renminbi ou outras moedas.
- Para a política econômica: aderir a um sistema de liquidação comum exigiria negociação sobre regras de câmbio, reservas e a coordenação entre diferentes regimes de controle de capital.
Em resumo, a existência de alternativas técnicas e o contexto geopolítico mais fragmentado tornam o projeto plausível na forma restrita de uma moeda para liquidação comercial, mas uma substituição plena do dólar continua a enfrentar grandes entraves institucionais e políticos.
Criação de uma moeda BRICS enfrenta obstáculos como controles de capital e perda de autonomia dos bancos centrais.
Modelo mais viável seria uma moeda/cesta para liquidar comércio intra-BRICS+.
Tecnologias digitais podem facilitar meios de pagamento alternativos.
Texto-base é de Jim O'Neill, reproduzido pelo InfoMoney a partir do Project Syndicate.
Linha do tempo (contexto histórico)
Cronologia
Fim de Bretton Woods
Marcador temporal citado por O'Neill como mudança que afetou a liberalizacao financeira global.
Origem do termo BRIC
Jim O'Neill cunhou a sigla que deu origem ao agrupamento político-econômico.
Expansão para BRICS+
O bloco cresceu com a adição de cinco novos membros, formando o BRICS+ mencionado no texto.
Novos acordos comerciais
Foram anunciados acordos relevantes entre Canadá-China, União Europeia-Mercosul e UE-India, segundo O'Neill.
Perguntas frequentes
Perguntas Frequentes
Não necessariamente. O'Neill aponta que uma substituição completa exigiria liberalizacao de contas de capital e renuncia de autonomia dos bancos centrais, o que é improvável no curto prazo.
Uma moeda ou mecanismo baseado numa cesta de moedas para liquidar o comércio entre os membros do BRICS+.
Tecnologias como stablecoins podem tanto reforçar o dólar quanto facilitar a criação de sistemas alternativos de pagamento entre os BRICS+.
Poderia reduzir custos de transacao para empresas que comerciam com outros membros do bloco e influenciar decisões de politica cambial e de reservas.
Fonte: Texto de Jim O'Neill publicado no Project Syndicate e reproduzido pelo InfoMoney. Todos os argumentos, dados e posições apresentados neste artigo derivam diretamente do texto original citado.
